Mundo chegará a 10 bi de habitantes? Qual o papel das famílias na “era” do declínio populacional



em 29/07/2020 às 09:48 hs

Por Sérgio Ferreira

A "era" do declínio populacional pode ocorrer mais cedo do que o esperado. É o que prevê uma nova análise publicada na revista The Lancet, que destoa das projeções da ONU de que a população mundial chegaria a 11 bilhões até o fim do século. O estudo, em contrapartida, sugere que o mundo nem mesmo alcançará a cifra de 10 bilhões de pessoas; já em 2064 alcançaríamos o pico de 9.73 bi. A queda demográfica se daria, inclusive, em países onde as taxas de fecundidade atualmente são altas.

Em 2064, o Brasil alcançaria no máximo 235 milhões de habitantes, afirma o estudo, e cairia para 165 milhões até 2100. Isso também destoa das projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cujo prognóstico é de que o Brasil chegue a um pico de 228 milhões de habitantes em 2048.

Os pressupostos são vistos como bastante ousados por muitos pesquisadores. "Quanto maior o horizonte de uma projeção e quanto mais parâmetros são colocados nos pressupostos, como ocorre no estudo, mais incertezas se tem. Pois são parâmetros que não se pode controlar", afirma Leila Ervatti, pesquisadora da Gerência de Estudos e Análise da Dinâmica Demográfica do IBGE.

Em que pese as chances de que os números exatos não se cumpram, demógrafos afirmam com alto grau de segurança acerca da tendência à qual o mundo está fadado: a queda global das taxas de fecundidade. O declínio populacional está fortemente associado a maior participação da mulher no mercado de trabalho, maior acesso à escolaridade e à contracepção.

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Por um lado, tal queda demográfica é vista com "entusiasmo" por parte dos especialistas que temem a tensão relacionada aos recursos naturais. O declínio populacional, portanto, traria boas notícia para o meio ambiente, com menos poluição e emissão de carbono. Eles também veem o crescimento da população como um “problema”, responsável pela fome, pobreza e desequilíbrio mundial.

Uma nova dinâmica na qual a população é menor e com uma estrutura etária envelhecida, contudo, como devemos ser nas próximas décadas, trará enormes desafios econômicos e sociais, com potencias impactos preocupantes. A tendência é de queda no crescimento econômico e aumento do peso sobre as contas públicas, à medida em que as sociedades tiverem de lidar com menos trabalhadores e contribuintes. Experiências de países que já enfrentaram o dilema, como os europeus, revelam que o sistema social não consegue "pagar a conta" da longevidade. Há, além disso, questões de ordem sociais como a lacuna

No Brasil, entre 1990 e 2012, o número de beneficiários da seguridade social teve aumento 24% maior do que o crescimento da população de 60 anos ou mais, revelam dados do IBGE. Nos próximos quarenta anos, o total de benefícios pode ser multiplicado por 3,3 vezes.

De políticas liberais de imigração à proibição do aborto, estudiosos se debruçam sobre possíveis soluções para contornar os dilemas demográficos. O futuro dependerá das estratégias que serão implementadas e, nesse sentido, especialistas apontam que o melhor caminho é reconhecer o papel das famílias, consideradas a base da sociedade pela Constituição Federal, como agentes sociais e, portanto, tê-las no centro da agenda das políticas públicas.

Equilíbrio trabalho-família

A fim de que uma geração seja substituída sem que haja declínio populacional, é necessário alcançar uma taxa de reposição de 2,1 filhos por mulher. Isso é, duas crianças substituem os pais e a fração 0,1 é necessária para compensar indivíduos que morrem antes da idade reprodutiva.

No Brasil, no entanto, a atual taxa de fecundidade é de 1,72 filho por mulher - cifra que deve dificultar o restabelecimento demográfico. "No Brasil, temos observado a queda da fecundidade há muito tempo, desde a década de 60", afirma Leila. "Alguns estados que já estavam com fecundidade muito baixa, como no Sul e Sudeste, deram uma pequena recuperada".

Segundo especialistas, esse cenário se deve também, em especial, a um sistema social no qual a maternidade acarreta penalidades à carreira profissional das mulheres, promovendo o desequilíbrio trabalho-família.

"O importante, na minha opinião, é perceber que a sociedade de hoje criou um sistema social no qual é muito difícil ter filhos", afirma Ignacio Socias, diretor na International Federation for Family Development (IFFD), que possui status consultivo na ONU.

Ângela Gandra, secretária nacional da Família no Ministério da Mulher, da Família e de Direitos Humanos, também aponta para essa conjuntura. "Infelizmente, a maternidade hoje, para nós, não é um bem. A maternidade sofre bullying. Se uma mulher tem filho logo após casar, perguntam a ela o que aconteceu de errado. Se outra mulher engravida do terceiro filho, perguntam se ela ficou louca, se não tinha o que fazer", diz.

Para a secretária, é preciso dar espaço novamente à cultura da maternidade. "Quando se sofre bullying e se vive em uma sociedade utilitarista, com certeza não haverá desejo por ter filhos. Mas é preciso pensar nos filhos como um bem, uma riqueza social, econômica e cultural. É uma consequência natural do amor humano. A sociedade civil só existe porque existe a família. É uma total inversão de valores quando o ser humano evita o que lhe seria mais próspero".

Como mostrou a Gazeta do Povo, no Brasil, mulheres com filhos tendem a ganhar, em média, R$ 555 a menos do que as que não são mães.

"Casais jovens são forçados a gastar muito tempo em educação, consolidação profissional e integração social. Estudos sucessivos da OCDE, por exemplo, mostram que a diferença entre a fertilidade desejada e a fertilidade real é um fato: os jovens gostariam de ter mais filhos do que têm, mas muitas vezes não têm tempo e recursos para realizar esse direito", afirma Socias.

Em resolução, a ONU aponta o caminho: políticas de equilíbrio trabalho-família, que forneçam subsídios capazes de promover um ambiente favorável a mulheres que desejem ter filhos e estar no mercado de trabalho ao mesmo tempo.

Por exemplo, assegurar licenças maternidade, paternidade ou parental, sem prejuízo de emprego ou salário. No Congresso Nacional tramitam ao menos seis propostas que tratam do tema. Um dos impasses associados à medida, contudo, são os dispêndios que podem ser gerados aos empregadores.

"Em geral, são políticas que tornam o mercado de trabalho mais flexível, para que mães e pais possam desfrutar da licença parental quando tiverem filhos, e depois voltarem a um trabalho que não incorre em penalidades por ter sido mães e pais", afirma Socias. "Nas circunstâncias atuais, ter um filho não deve ser financeiramente prejudicial, uma desvantagem profissional ou discriminação social. A maioria dessas crianças será responsável no futuro pelos cidadãos, e toda a sociedade se beneficiará, não apenas seus pais ou familiares".

Gazeta do Povo

 



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